LEVANTAMENTO DA OCORRÊNCIA DA ONÇA-PINTADA (PANTHERA ONCA) E SUAS PRESAS NATURAIS NA ESTAÇÃO ECOLÓGICA JURÉIA-ITATINS (SERRA DO ITATINS)

PARCEIROS:

Estudo essencial para a Conservação da emblemática onça-pintada no bioma da Mata Atlântica onde este animal está desaparecendo drasticamente.

A EEJI (Estação Ecológica Juréia-Itatins) faz parte da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica abrigando um dos últimos remanescentes preservado deste bioma (Fundação SOS Mata Atlântica & INPE, 2008). Desta forma possui habitat ideal para populações saudáveis de onça-pintada.

Estudos promissores e desafiadores já confirmaram a presença da onça-pintada na EEJI (BEISEGEL, 2009; MAGGIORINI, 2013; MARTINS, 2015)  mas acabaram deixando lacunas em algumas áreas, como regiões de florestas ombrófila densa montana e sub-montana. E é justamente nestas áreas  de difícil acesso pelos humanos e de declives acentuados que estão os remanescentes mais preservados de Mata Atlântica (RIBEIRO et al, 2009; TABARELI et al, 2010).

A situação da onça-pintada na Mata Atlântica brasileira é muito preocupante, com subpopulações remanescentes em declínio  (BEISIEGEL et al., 2012). Diante deste cenário, estima-se que houve uma redução do tamanho populacional efetivo de onças-pintadas, de pelo menos 80% nos últimos 15 anos em toda a história da Mata Atlântica (MORATO et al., 2013).
A comprovação da existência da onça nas áreas deste estudo seria um elo importante para ajudar no Projeto Corredor da Onça-pintada e justificaria a importância de ligar as onças do Vale do Ribeira e da Serra do Mar com as onças da Mata Atlântica da Juréia-Itatins, salvando estes animais do isolamento genético que resultaria na extinção da espécie (MARTINS, 2015).

MAPA DA ESTAÇÂO ESCOLÓGICA JURÉIA-ITATINS (EEJI) abrangendo os municípios
de Peruíbe, Iguapé, Itariri, Pedro de Toledo e Miracatu no litoral sul de São Paulo.

MATERIAIS E MÉTODOS
Visando realizar um estudo com o menor impacto possível nestes escassos felinos, nosso estudo foi pensado seguindo a metodologia dos estudos mais atuais sobre densidade populacional no mundo, que têm utilizado com sucesso o registro de armadilhas fotográficas (NEGRÕES et al, 2010). Estes estudos foram sucessores de uma pesquisa promissora realizada com tigres na Índia (KARANTH e NICHOLS, 1998).
O trabalho de captura por armadilhas fotográficas permite a identificação de mamíferos de médio e grande porte (TOMAS e MIRANDA, 2006) através de detalhes individuais como manchas corporais e faciais, cicatrizes, porte corporal e sexo, e podem em um curto período de amostragem, permitir uma estimativa da abundância populacional e descarta a necessidade de contenção e captura do animal (AZEVEDO et al, 2013).

 

                                 

O estudo vai priorizar as áreas de encosta porque seguindo os resultados do estudo de MARTINS, 2015 de cada 10 registros indiretos da presença de onça-pintada na EEJI e no PESM, 7 estavam no ambiente de encosta.
Os pontos de instalação das câmeras trap serão escolhidos nas áreas dentro da Serra do Itatins de forma não sistemática seguindo como base locais de estudos anteriores (MARTINS e BORINI, 2008) e também faremos caminhadas em trilhas a pé, de carro por estradas ou de barco por rios analisando pontos ideais, tomando três parâmetros:

1 – Características da vegetação dando prioridade para mata primária e secundária, pois na Mata Atlântica o habitat da onça-pintada e suas presas está associado às florestas primárias e secundárias (DE ANGELO et al, 2013), motivo este porque a maioria dos registros do animal aparecem dentro de Unidades de conservação.
2 – Presença de presas potenciais principalmente porcos-selvagens, veados e tatus, proximidade com corpos d`água, presença de rastros como fezes, pegadas, arranhões, pelos restos de carcaça de alimentação (SRBEK-ARAUJO, 2007)
3 –  Relatos recentes coletados de moradores locais, como pescadores, caiçaras, guias de turismo, observadores de aves e moradores das áreas de APA (área de proteção ambiental) ou RDS (reserva de desenvolvimento sustentável) próximas a Reserva Ecológica Juréia-Itatins (EEJI), muitas vezes estas pessoas em seu dia-a-dia avistam a onça e avisam os pesquisadores rapidamente, criando assim uma rede de comunicação entre a comunidade e o pesquisador, monitorando a presença da onça ou rastros dela. As pessoas destas localidades possuem muito conhecimento da fauna local e se interessam em participar de projetos assim. Serão realizadas entrevistas, por meio de questionário sobre locais onde ocorreu observação direta da onça-pintada ou de suas presas. Os questionários aplicados seguiram os mesmos modelos e formas de aplicação do estudos de MAGGIORINI, 2013.

Após definidos os pontos de amostragem seguindo os parâmetros acima, as armadilhas fotográficas serão instaladas fixadas em árvores com diâmetro maior que 15 cm e cerca de 45 cm do solo (SRBEK-ARAUJO, 2007) e reguladas para funcionarem 24 horas/dia, com intervalo entre fotografias de 10 segundos e seus pontos georeferenciados com o auxílio de um aparelho GPS (“Global Position System”). Serão posicionadas evitando o eixo Leste/Oeste em área mais abertas, para que a luz solar não entre em contato com o sensor infravermelho, evitando ativação indevida. Para garantir um monitoramento contínuo de cada ponto de captura.
Serão 40 pontos de amostragem (ou seja 40 câmeras) emprestadas graças a parceria com o CENAP (Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamiferos Carnivoros) e distribuídas nas áreas de floresta ombrófila densa submontana e montana (área limitada por linha preta e com pontos amarelos no mapa abaixo). Cada ponto possuirá 1 câmera trap numa área com espaçamentos circulares de 4 km entre câmeras (BEISEGEL, 2012). Esta distância é uma estimativa conservadora de uma menor área de vida de uma femea de onça-pintada em área de Mata Atlântica (BEISIEGEL, 2007).

As câmeras serão vistoriadas a cada 15 dias (ASTETE, 2008) num período de captação de 3 meses no período de agosto de 2021 a outubro de 2021. Dependendo dos resultados estes pontos podem ser remanejados fazendo-se o rodizio das câmeras para outros pontos melhores para uma melhor otimização.

 O Brasil é responsável pela gestão do maior patrimônio de biodiversidade do mundo; são mais de 120 mil espécies de invertebrados e aproximadamente 9 mil espécies de vertebrados, sendo uma obrigação do poder público e da sociedade protegê-las (ICMBio, 2019). Com respeito especialmente à Mata Atlântica, pois sabe-se que este bioma é conhecido por sua alta biodiversidade e número de espécies endêmicas ameaçadas de extinção (MYERS et al, 2000).


MAPA DA AREA DE ESTUDO onde os pontos amarelos são os pontos de amostragem (instalações das câmeras trap)
nas áreas em verde escuro e bege claro (Floresta Ombrófila densa Montana e Sub-montana) da Serra do Itatins e da
RDS Despraiado.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ASTETE, S. E. P.; Sollmann, R. & Silveira, L. 2008. Comparative Ecology of Jaguars in Brazil. Cat News.

BEISIEGEL, B. M. 2007. Repartição de recursos pela comunidade de mamíferos carnívoros (Mammalia: Carnivora) de uma grande área de floresta pluvial tropical atlântica. Relatorio não publicado apresentado ao Insttuto Florestal de São Paulo e ao IBAMA.

BEISIEGEL, B. M. 2012. Onças da região do Vale do Ribeira e do Alto Paranapanema. CENAP – ICMBio.

BEISEIGEL, B. M.; SANA, D. A.; MORAES, E. A. 2012. The Jaguar in the Atlantic Forest. Cat News, Bern, Special Issue, 7, p. 14-18.

De ANGELO, C.; Paviolo, A. & Di Bitetti, M. 2011. Differential impact of landscape transformation on pumas (Puma concolor) and jaguars (Panthera onca) in the Upper Paraná Atlantic Forest. Diversity and Distribution, 17: 422-436.

De ANGELO, C., A. PAVIOLO, T. WIEGANDi, R. KANAGARA, and M.S. DI BITETTI. 2013. “Understanding species persistence for defining conservation actions: a management landscape for jaguars in the Atlantic Forest”. Biological conservation 159: 422-433.

FSOSMA; INPE, 2011. Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica – Período 2008-2010. São Paulo: Fundação SOS Mata Atlântica & Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, 2011.

ICMBIO, 2011. Plano de Ação para a Conservação da Onça-Pintada. Sumário Executivo. ICMBio. 8p.

ICMBIO. Biodiversidade do Cerrado. Instituto Chico Mendes. Disponível em: http://www.icmbio.gov.br/cbc/conservacao-da-biodiversidade/biodiversidade.html. Acesso: 07 agosto 2019.

KARANTH, K. U.; NICHOLS, J. D. 1998. Estimation of tiger densities in India using photographic captures and recaptures. Ecology.

KARANTH, K. U.; NICHOLS, J. D. 2002. Monitoring tigers and their prey: A manual for researchers, managers and conservationists in Tropical Asia. Centre for Wildlife Studies, Bangalore, Índia,

MARTINS, R. & BORINI, A. 2008. Distribuição espacial de grandes felinos e abundância relativa de mamíferos em uma área de Mata-Atlântica costeira do Brasil.. In: IV Congresso Brasileiro de Mastozoologia., São Lourenço. Anais do IV Congresso Brasileiro de Mastozoologia.

MARTINS, R. 2015. Conservação de onça-parda (Puma concolor) e de onça-pintada (Panthera onca) no Mosaico da Juréia-Itatins. Mestrado. Santos, SP.

MAGGIORINI, E. V. 2013. Caracterização do corredor ecológico da Mata atlântica Costeira quanto á ocorrência da onça-pintada (Panthera onca). Mestrado. Piracicaba, SP.

MYERS, N.; MITTERMEIER, R. A.; MITTERMEIER, C. G; FONSECA, G. A. B et KENT, J. Biociversity hotspots for conservation priorities. Nature 403. 210. P. 853-858.

MORATO, R. G. et al. 2013. Avaliação do risco de extinção da onça pintada (Panthera onca) no Brasil. Biodiversidade Brasileira.

NEGROES, N.; SOLLMANN, R.; FONSECA, C.; JACOMO, A.T.; REVILLA, E. & SILVEIRA, L. 2012. One or twon cameras per station? Morning jaguars and outher mammals in the Amazon. Ecological research. 27(3): 639-648.

RIBEIRO, M. C., et al. 2009. The brazilian Atlantic Forest: how much is left, and how is the remaining Forest distributed. Implications for conservation. Biol. Conserv., 142, 1141-1153,

TABARELLI, M.; AGUIAR, A.V.; RIBEIRO, M.C.; METZER, J.P.; PERES C. A. 2010. Prospects for biodiversity conservation in the Atlantic Forest. Lessons from aging human-modified landscapes. Biological Conservation, Essex, v. 143, p. 2328 – 2340.

 

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